Geopolítica

A Geopolítica do Canal de Suez – Passado, Presente e Futuro

Escrito por Thales Peixoto

Na elaboração deste artigo buscou-se compreender a atual conjuntura do canal de Suez no Egito por meio de discussões históricas, análises geopolíticas e seus conflitos no decorrer das últimas décadas. O comércio internacional está cada vez mais presente em nosso mundo globalizado, a informação e os produtos necessitam de rotas de transporte acessíveis, rápidas e que sejam capazes de se conectar a todos os continentes de forma eficiente. A criação de Suez foi justamente para suprir essa necessidade.

O canal de Suez é marcado por diversos conflitos, justamente por sua posição estratégica. Sendo assim, espera-se que a nação que obtiver maior influência sobre o Egito, que é o detentor de Suez, terá grande poder sobre a passagem de navios para comércio internacional, até mesmo o poder de embargos sobre o canal em períodos de guerra, enfraquecendo assim seu inimigo (em caso de guerras próximas ao local) e dificultando o fluxo global de alimentos e suprimentos por esta importante rota marítima. Será que o atual canal possui a autonomia de gestão e proteção contra eventuais fechamentos para o comércio internacional?

Posição Geográfica de Suez

Fonte: Google Earth; Elaboração: Peixoto, T.P.

O Canal começa pela cidade de Port Said ao norte e se estende até ao sul onde fica a cidade de Suez no Egito, ligando Oceano Índico por meio do Mar Vermelho ao Mar Mediterrâneo através de um estreito com 163 km, agora com 195km de comprimento, segundo BBC (2015). Suez também separa os continentes da Ásia (Oriente Médio) e África.

Segundo Junior (2008) a construção do canal se deu entre 1859 e 1869 pela companhia francesa de Ferdinand de Lesseps, o canal tinha como objetivo atender o comércio internacional, e aumentar a mobilidade dos produtos entre a Europa e a Ásia, principalmente da França que estava em um fase de grande progresso industrial. Antes de Suez os navios tinham que contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança ou por terra no Oriente Médio, percebe-se que o canal reduziu consideravelmente o tempo gasto com o transporte mercante. Ao final da construção o canal ficou em posse do Egito que era o detentor do território e a França que na época possuía a tecnologia para construção de canais, que anteriormente havia tentando construir um canal no Panamá mas sem muito sucesso devido a pragas e problemas políticos daquela região, não continuou a escavação (ISTOÉ, 2006).

A França no momento da inauguração do canal estava sob um poder monárquico, ao qual é marcado por grande modernização e desenvolvimento econômico, colocando a França como um centro de exposições mundiais e fortalecendo a divulgação de seu progresso cultural, industrial e suas políticas territoriais para o mundo, o Canal de Suez se torna um simbolo deste periodo. Já o Egito marcado por vários conflitos em sua história, dentre eles a dominação de seus territórios o que o transformava em um país colonizado, em 1798 foi novamente invadido, mas agora por franceses sobre as ordens de Napoleão Bonaparte, o que resultou na modificação da cultura dos egípcios, tal como eles foram expostos aos princípios da revolução francesa, trazendo grande influência sobre como governar, para o Egito. Após os franceses deixarem o país, ocorre um período marcado por várias sucessões de guerras civis, somente em 1805 através do Império Otomano, o Egito seria governado por um vice-rei (Quediva[1]), esse período é marcado por grandes obras de modernização, reformas agrícolas e industrialização do país.

Por causa da má administração do vice-rei, em 1879 o Egito entrou em crise financeira, fato que interessou ao governo britânico com sua política expansionista e um Estado imperialista, financiando o pagamento das dívidas do Egito e em troca obtendo a concessão do canal de Suez. Em 1882 tropas britânicas se instalaram perto do canal afim de defendê-lo contra eventuais conflitos naquela região. O Reino Unido possuía inicialmente no século XIX uma das mais poderosas Marinhas Navais do mundo, o que facilitou no controle de suas colônias principalmente sua base naval em Suez. Em seguida a partir de 1888 a Convenção de Constantinopla[2] estipulou a neutralidade e livre passagem pelo canal. (JUNIOR, 2008).

Durante a Segunda Guerra Mundial, britânicos e franceses assinaram o acordo Sykes-Picot, em seguida, devido aos conflitos de interesses entre os dois países, ocorre o alinhamento dos países do Oriente Médio, onde Turquia, Síria e Líbano são controlados e influenciados pela França e mais ao sul, a Arábia Saudita, Egito e parte da Península Árabe ficam sob o comando do Reino Unido, resultando no distanciamento da França e aumentado da influência do Reino Unido na região do canal.

Na década de 50, o governo do Egito nacionaliza o canal de Suez e denuncia o Reino Unido por suas influências danosas e políticas de dominação, provocando descontentamento de britânicos e franceses (principais acionistas de Suez). Em retaliação, ocorre a Guerra dos Seis Dias em 1967 envolvendo o Reino Unido, Israel e França, e somente após 1975 com as intensas intervenções da ONU o canal pode ser reaberto globalmente.

Em 2015 o canal inaugurou sua expansão, que levou aproximadamente um ano para ficar pronta, e segundo a BBC Brasil (2015), em Suez passa 7% do comércio internacional e 22% dos navios de petróleo oriundos do Golfo Pérsico, sendo um canal de grande importância para o Egito, estima-se um rendimento de até 13,2 bilhões até o ano 2023. Com ele o Estado obtém recursos para manutenção do país, ainda mais quando a Primavera Árabe em 2011, afastou do país turistas e empresas multinacionais, como Citado pelo Econômico (2016). O canal atualmente possui um forte esquema de segurança para proteger as embarcações. O grande problema não é mais a disputa pelo território executadas pelos Estados, mas sim a dominação de grupos terroristas islâmicos que circulam nas mediações do canal.

Em resumo, Suez está em uma área estratégica principalmente para o comércio marítimo, mas pertence a um país cujo povo na visão Ratzeliana seria considerado como natural por não possuir nenhuma política expansionista e também por receber influências de países chamados de povos de cultura como a França que num primeiro momento dominou o Egito através de conflitos bélicos, e num segundo momento vemos o Reino Unido utilizando o seu poder marítimo e estratégico para o controle do canal, o que reforça a importância do canal, indicando que sua posse ou controle é atualmente uma das principais pretensões econômicas da atualidade (podendo ser efetivada por meio do Estado ou pelo capital privado, em um futuro não tão distante ). Suez atualmente é a principal fonte de renda para o governo egípcio, o canal e fortemente vigiado e sua segurança foi aumentada mas agora pelo receio de grupos extremistas que estão em países vizinho ao território do Egito.

REFERÊNCIAS

BBC Brasil. O novo Canal de Suez: a obra faraônica que o Egito fez em um ano. 02/08/2015. Disponível em <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150802_novo_canal_suez_tg> Acesso em: 31 Ago. 2016./

Económico. Petroleiros vão pagar mais para atravessar o canal de Suez. 19/06/2016. Disponível em <http://economico.sapo.pt/noticias/petroleiros-vao-pagar-mais-para-atravessar-o-canal-de-suez_252397.html> Acesso em: 31 Ago. 2016./

GOOGLE. Google Earth Pro. Versão 7.1.7.2600. 2016. Localização de Suez. Disponível em: <https://www.google.com.br/maps/place/Canal+de+Suez/@30.5093842,31.8848267,9z/
data=!3m1!4b1!4m5!3m4!1s0x14f9aaeef52d333b:0xadec1b7a1220a846!8m2!3d30.5105833!4d32.4453093?hl=pt-BR>. Acesso em: 31 Ago. 2016./

ISTOÉ. Como Encurtar o Mundo. Edição n°1916, 12 Jun. 2006, p. 80-81./

JUNIOR, Theodoro da Silva. Canal De Suez – Atualização De Dados Históricos. 04/11/2008. Disponível em <http://www.batalhaosuez.com.br/historiaCanalDEsuezAtual.htm> Acesso em: 01 Set. 2016.


[1] Título de vice-rei dado pelo Império Otomano
[2] Convenção com participação de 6 países desenvolvidos europeus, Países Baixos e a Espanha, e teve como objetivo estabelecer a neutralidade do canal de Suez em tempos de guerra.

 

Sobre o autor

Thales Peixoto

Graduando em Geografia pela Pontifícia Universidade Católica. Estuda e desenvolve metodologias ativas de ensino utilizando principalmente as tecnologias digitais como ferramenta. Possui experiencia na área de Geociências, atuando principalmente nos seguintes temas: Geoprocessamento, Geomorfologia, Mapeamento e Planejamento Ambiental.

Deixe um comentário