Geopolítica

BALCÃS: UMA BREVE ANÁLISE DOS CONFLITOS

Escrito por Gabriel Caldeira

      Ao longo do período histórico a região dos Bálcãs passou por intensas transformações, as fronteiras dos impérios e Estados não se mantinham estagnadas por muito tempo e guerras surgiam a todo momento. A multiplicidade étnica e cultural distribuída sob porcentagens diferentes ao longo do território balcânico, pode ser uma das principais justificativas para o surgimento de diversos conflitos, muitos deles, inclusive levando a guerras com intenção de promover higienização étnica e/ou com a intenção de promover a independência de grupos e regiões. Várias foram as tentativas de estabilização dos conflitos, porém, devido a gênese do conflito ser principalmente étnico-cultural e econômica, se torna de fato quase impossível conseguir tal proeza. Por meio da abordagem geopolítica, o presente trabalho tem como objetivo compreender as razões políticas e econômicas que influenciaram na conformação atual e na delimitação das fronteiras. Devido ao fato da gênese dos conflitos serem antigas, optou-se por realizar o trabalho com uma abordagem histórica.

LOCALIZAÇÃO

                       

 A região dos Bálcãs está geograficamente posicionada no sudeste europeu, em uma porção do globo onde existem grandes antagonismos. De um lado tem-se a Igreja Ortodoxa e Católica Romana na Europa, e de outro o mundo islâmico na Ásia. Limite entre o Ocidente e o Oriente.A Península Balcânicapossui 666.700 km², se estende dos países da Áustria e Hungria em direção ao sul. Banhada pelo Mar Adriático a oeste, e pelo Mar Egeu e Jônico ao Sul, e pelo mar negro a leste. É composta pelos Estados: Albânia, Bósnia e Herzegovina, Bulgária, Grécia, República da Macedônia, Montenegro, Sérvia, o autoproclamado independente Kosovo, a Turquia (Trácia), bem como, algumas vezes, Croácia, Romênia, Eslovênia e a Áustria.

                                

HISTÓRIA DO DEVIR E BREVE ANÁLISE DOS CONFLITOS

Segundo Wilkis (1996) foram encontrados vários artefatos arqueológicos que comprovam que a região dos Bálcãs é habitada desde o ano 200.000 a.C. pelas culturas Aurignacaian e Gravettian. Devido a sua posição geográfica de Carrefour, ou seja, entroncamento entre várias civilizações, etnias,religiões e línguas,no decorrer da história ela já esteve sob o domínio de diversos povos, como Persas, Gregos, Romanos, Bizantinos e otomanos.
No século XIX, a tendência era a expansão dos Impérios em busca de maior poderterritorial, porém para que isso fosse possível, seria necessário a regressão de outro território, ou seja, outro Império, portanto ao pretender expandir as suas áreas de influência, os Impérios tinham que negociar exaustivamente com os demais (políticas gerais), para que juntos adotassem medidas que promoveriam a conquista de territórios alheios. Entre essas alianças, podemoscitar a Santa Aliança que reuniu o Reino da Prússia, Império Austríaco e Império Russo, em seguida foi formada a Liga dos Três Imperadores envolvendo a Áustria-Hungria, Alemanha e Rússia. O acordo não deu muito certo,porque a Rússiae a Áustria-Hungria possuíam interesses dissonantes quanto ao futuro dos Bálcãs. Se aproveitando do impasse, a Alemanha assediou a Áustria-Hungria para que juntas formassem uma aliança, o que de fato aconteceu no ano de 1879, esta aliança ficou popularmente conhecida como Aliança Dua. Esta, possuíacomo intenção primordial o combate a influência russa nos Bálcãs durante o enfraquecimento do outrora grandioso império Otomano, três anos mais tarde a Itália foi incluída, formando a Tríplice Aliança.

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    Segundo Keegan (1998) a Áustria-Hungria ao anexar a Bósnia e Herzegovina (remanescentes do Império Otomano) aumentou consideravelmente a crise que assolava o país. Este acontecimento incitou a repressão de diversos países, dentre eles o Reino da Sérvia e o ImpérioRusso. Os acordosde paz que se encontravam enfraquecidos, foram completamente desestabilizados com as incursões políticas na região, dando início ao período que ficou conhecido como “o barril de pólvora da Europa”, havendo a adoção do modelo de defesa ativa por vários governos.
No início de Século XX com a queda do grandioso Império Otomano e a falta de coesão entre as populações das antigas terras pertencentes ao império, inicia-se a eclosão de duas guerras em busca de expansão territorial, a primeira, envolvendo os Estados da Grécia, Montenegro, Sérvia, Romênia (sucessores do Império Otomano) e do outro lado a Bulgária, que batalhava pela posse dos territórios restantes do antigo Império Otomano. Já o segundo conflito, ocorrido em 1912, foi entrea Liga Balcânica (Bulgária, Grécia,Montenegro, Sérvia) e a Turquia,sobretudo, contra seu território na Europa (Trácia),sob a reivindicação de melhorestratamentos para os cristãos da Macedônia, porém o objetivo real era a expulsão dos turcos do local e o restabelecimento do poder estratégico sérvio sob a área. Como neste momento a Turquiaestava travando uma guerra contra a Itália, se tornou difícilresistir à investida da Liga. Inicia-se nesse momento o confronto conhecido como a Primeira guerra dos Bálcãs.
Também neste período, a Sérvia, com tendências expansionistas, buscava anexar a Albânia, mas a Áustria interveio em prol do reconhecimento da independência Albanesa, restringindo a expansão Sérviae provocando o acirramento da rivalidade entre os Estados. Neste período ficou evidente o poder que os países tinham ao se unir em alianças, bem como, a importância de se elaborar estratégias no campo exterior para barrar o crescimento econômico e territoriais dos estados inimigos.
Estesconflitos foram responsáveis pelo desencadeamento da Primeira Guerra Mundial, com o assassinato do herdeiro do trono Austro-Húngaro o Arquiduque Francisco Ferdinando por um membro da “jovem Bósnia”, sob treinamento da organização conhecida como “mão negra”, que ofereceu armas para Gavrilo (assassino) e seu grupo. Devido a multipolarização e as alianças firmadas, vários países foram arrastados para a guerrapromovendo um verdadeiro banho de sangue. Os fatos que se sucederam acabaram por fomentar a criação do movimento pan- eslavista, que preteria a junção das nações balcânicas em um grande Estado coeso denominado Grã-Sérvia.
Segundo o Marcos Bau (2010) ao final da Primeira Guerra, ocorre o desmembramento do império Austro-Húngaro e Otomano, em seguida em 1918 é criada a Iugoslávia com o nome de Reino dos Sérvios, Croatase Eslovenos. Em 1929 recebeu o nome de Reino da Iugoslávia e no pós-segunda Guerra (1939 a 1945), com a ascensão comunista, o território foi redistribuído de acordo com as fronteiras etnolinguísticas (e religiosas) anteriores a 1929, e passou a se chamar República Socialista Federal da Iugoslávia com capital em Belgrado, na Sérvia.
Em 1941 ocorreu a invasão do território da Iugoslávia após a mesma assinar um pacto de amizade com a União Soviética, a invasão foi planejada pala Alemanha, Itália, Hungria e Bulgária, tinha como foco a imposição de rompimento entre Iugoslávia e URSS. Pode-se dizer que esta manobra foi a responsável pela aproximação da Croácia com os países do Eixo, sobretudo com a Alemanha.
Após a incursão, a região entrou novamente em uma guerra civil (Conflito dos Bálcãs), desta vez não se tratava exclusivamente de um conflito étnico, mas sim, em quase sua totalidade, de um conflito político com interesses econômicos e territoriais mascarados de étnico-ideológico.
Ao longo da Segunda Guerraa região da Iugoslávia foi ocupada pelosnazistas. A população tinha se dividido entre os nacionalistas leais ao rei sérvio Pedro II e os Guerrilheiros que apoiavam o Partido Comunista.
Liderando os Guerrilheiros encontrava-se o Austro-Húngaro Josip Broz Tito, que após a abolição da dinastia Karageorgevic, foi nomeado Primeiro Ministro e Ministro da Guerra da República Federativa Popular da Iugoslávia. Em um primeiro momento Tito demonstrou sua aliança com a União Soviética, concordando com todos os acordos propostos por Stalin. Por outro lado, rejeitava o Plano Marshal proposto pelos Estados Unidos. Acordos entre os países foram intensos, existiam concessões de exploração de minérios em território Iugoslavo em troca de linhas de crédito, com finalidade de consolidar sua industrialização.
Mas logo os acordos entre os Soviéticos e os Iugoslavos, começaram a apresentar desavenças, a coletivização (ondeos países socialistas deveriam entregar suas terras ao Estado, em troca de uma comuna) começou a desagradar os camponeses da Iugoslávia que haviam visto suas colheitas gerarem lucro. Na verdade, neste primeiro momento o país não foi considerado um aliado por Stalin, issoporque Tito havia chegadoao poder sem sua ajuda,ao contrário de outros países no leste europeu. Tito resolveu buscar apoio ao ocidente, foi então que houve o rompimento entre os envolvidos em 1948, quandoStalin o denuncioucomo traidor do Comunismo.
 
A partir do rompimento, Tito começou a desenvolver um modelo político e econômico diferenciado. Foi um exemplo de socialismo real não alinhado nem aos Soviéticos nem ao Ocidente. Tito conseguiu construir uma Federação de Repúblicas com direitos iguais eliminando políticas de repressão às minorias nacionais. Como salienta ALVAREZ (2008) “Tito esforçou-se em impedir o domínio de uma nacionalidade sobre outra, e, portanto, nunca houve proibições do uso de vários idiomas, e mesmo a prática religiosa era relativamente tolerada. Nos organismos estatais, era observada a participação de todas as nacionalidades. ”
Segundo FERÓN apud ALVAREZ (2008), existiam mais de quarenta credos reconhecidos pelo governo, que se declarava Laico, da República Democrática Federal da Iugoslávia. Dentre eles pode-se destacar três: a Ortodoxia, o Catolicismo Romano e o Islamismo.
A igreja ortodoxa era de religião predominante, com aproximadamente 8 milhões de seguidores. Era a religião que mantinha o melhor relacionamento com o Governo. E a que mantinha o desejo de se manter a Grande Sérvia, que seria idéia de expansão do território incorporando outros territórios vizinhos como a Croácia e Eslovênia. A segunda religião predominante era o catolicismo romano com cerca de 6 milhões de seguidores, concentrados em sua maioria na Croácia e Eslovênia, e em menor número na Bósnia e Sérvia. A terceira religião era o islamismo que contava com cerca de 2,8 milhões de seguidores a maioria concentrados no Kosovo, na Macedônia e na Bósnia. (ALVAREZ, 2008.)
As diferenças entre as repúblicas mais ricas e as mais pobres eram compensadas pelo Estado, que redistribuía as riquezas. Locais como a Bósnia receberam maior atenção por causa da grande variedade étnica.
A morte de Tito em 1980 pode ser considerada o marco para o começo do desmembramento da Iugoslávia. As tensões no país que vinham aumentando por causa da dívida externa, causada por sucessivos empréstimos ao Banco Mundial, foram aumentadas. A economia do mundo se tornava cada vez mais integrada, com o surgimento de blocos econômicos e alianças, países isolados estavam perdendo cada vez mais espaço na economia. Ao mesmo tempo o anticomunismo ganhava notoriedade e a atenção da população que o considerava a única saída para garantir o sonho de liberdade sob os preceitos ocidentais.
Posteriormente com a chegada de Slobodan Milosevic ao poder as diferenças do  país se  tornaram quase  que incontroláveis, quando  o governante  utilizou    do nacionalismo sérvio para se consolidar no poder e mobilizar a população. A onda nacionalista progredia a nível avassalador, em 1989, os eslovenos e croatas abandonaram a Liga Comunista.
O fim da União Soviética causou uma efervescência de conflitos étnico, com o fim do socialismo, nações que antes eram oprimidas, se afloraram e buscaram a independência. Com a Iugoslávia não foi diferente, as diferenças entre etnias se afloraram e regiões como a da Bósnia decidiram sair do domíniode Milosevic. Nesse período, pode-se dizer devido a existência de combates entre etnias diferentes que houve um conflito intercivilizacional, pois existia uma grande parte da população da Bósnia que era muçulmana, aliás pode-se dizer inclusive que a Bósnia era a nação mais heterogênea da antiga Iugoslávia, justificando as constantes tentativas de homogeneização.

 

                  Figura 2 – Divisão étnica dos países Balcânicos


Fonte: Geografia Opinativa
Em maio de 1993 a ONU e a Comunidade Europeia resolveram intervir no conflito. Os enclaves muçulmanos de Sarajevo, Gorazde, Bihac, Srebrenica, Tuzla e Zepa foram declaradas “zonas de segurança” pela ONU. Em 1994 os Estados Unidos que até então não havia interferido no conflito, obrigaram os croatas e os muçulmanos a constituir uma Federação croata-muçulmana assinalando o fim dos combatesentre as duas nações.Mas sem muito sucesso, em 1995 a OTAN interveio militarmente no local, contra as forças sérvias, assim teve fim os grandes focos de tensão na região.
 
Atualmente vivemos um momento onde as civilizações buscam a valorização da própria cultura, Porém em contrapartida, as culturas alheias são fortemente reprimidas, não pela sua espacialização, expressividade cultural ou biológica, mas sim pela situação econômica dos países aos quais residem. Sob as máscaras da discursão étnica se escondem conflitos puramente político- econômicos, porém por necessidade discursiva e mercadológica são vendidos sobre óticas que parecem impossíveis de se resolver. Com a crise das migrações uma grande parte de população de origem muçulmana está buscando refúgio, principalmente na Europa. A atuação de órgãos supranacionais como a ONU se faz necessária, por causa do aumento das ondas conservadoras. O xenofobismo está mais aflorado, por isso deve-se ficar atento quanto ao comportamento desta região que é apelidada de “barril de pólvora da Europa”.

AUTORES DESTE TEXTO, PARA VOCÊ CITAR A FONTE NO TRABALHO:
GOMES. G, C   e  BRANDÃO, V, C

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

ÁLVAREZ, Ana Muñiz. A Atuação da ONU no Conflito dos Bálcãs:O Institucionalismo, somente uma promessa?. 2008. Disponível em:
ana

-muc3b1iz-c3a1lvarez-a-atuac3a7c3a3o- da-…> .  Acesso: 22 Nov. 2016.

Geografia Opinativa. Conflito dos Bálcãs. < http://www.geografiaopinativa.com.br/2015/05/conflitos-etnico-separatistas-i-balcas
>. Acesso em 17. Nov.2016.
Keegan, John. The First World War, Hutchinson, general military history. Pg.52. 1998.
Marcos Bau. Bálcãs e Balcanização –  Formação e Fragmentação da Iugoslávia
/

>, Acesso 22. Nov. 2016.

Nova Enciclopédia Ilustrada Folha, Empresa Folha da Manhã, São Paulo, 1996. Willmott, H.P. World War I, New York: Dorling Kindersley. Pg.15. 2003
Wilkes. Jhon. The Illyrians (The Peoples ofEurope),1996, pg. 39. 1996

Sobre o autor

Gabriel Caldeira

Técnico Ambiental, Blogueiro, youtuber, adepto a esportes radicais em meio a natureza, professor de geografia e de vários cursos virtuais, atualmente está cursando Geografia na PUC Minas. Trabalha incansavelmente, para promover o compartilhamento de informações relevantes na rede, escreve, grava, edita e compartilha todo tipo de coisa que envolva a geografia.
É aspirante a documentarista, engajado nas causas ambientais e sempre caminha no sentido da inovação.

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